Cabana é habitação pequena ou simples, geralmente campestre ou em local afastado, feita com materiais rústicos ou de pouco valor (como palha, ramos, etc.) e sem acabamento; barraca. A cama que comprei já lembra as de campanha, embora não seja de madeira, mas de metal. Mas ontem, quando estive no apartamento, pareceu que alguém por lá andava. Um tecido esticado em tons de azul pendia da grade da cama esta, logo na entrada, dando ares de cortina, como que protegendo alguém ou algum lugar. Pareceu um abrigo. Pareceu habitado. Fazendo já bem uns dias que não durmo lá, diria que o espírito que evocava durante o expediente viajou para lá, no meio da tarde.
O agosto branco hoje fotografado na capa do jornal, mostrando a capa de nuvens que cobre a cidade de São Paulo e impede o pouso dos aviões, remete à imagem que vi, horas antes, de um alpinista no cume do Aconcágua: o mesmo branco, o tapete, a terra firme que engana o olho. É esta capa nebulosa que talvez vista as razões, agora, de uma pessoa inventar tantos recursos para querer se instalar num espaço. Nunca foi tão difícil. A capa branca de agosto pode, quem sabe, enganar ideias: vim de um inverno gelado, de uma morada estrangeira, de uma esquina de colégio e Quilmes quebradas no asfalto. Vim da quadra do kiosco do Rolo e dos bilhetes que me deixavam ali, e que ele, Rolo, guardava. Das noites de cumbia no rádio, amor e calor, a eternidade. Lá, eu me encolhia nos xales e devorava os capítulos da Rayuela.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009
quinta-feira, 23 de julho de 2009
o jogo do mundo (rayuela lá em portugal)
"(...) Foram necessários 45 anos para que Rayuela, de Cortázar, chegasse a ter uma edição portuguesa, esta edição. Se considerarmos que se trata do livro incontornável de um autor incontornável na literatura do século XX, é fácil constatar que 45 anos é uma espera demasiado grande. E, no entanto, esse foi o tempo necessário para que Rayuela chegasse a ser O Jogo do Mundo, o livro que tem neste momento em mãos. Parece-me que todas as editoras portuguesas, desde 1963 até aos nossos dias, deveriam sentir algum embaraço (pelo menos) perante este facto.
Foneticamente, Rayuela é uma palavra que rola pelo interior da boca, como um doce que se desfaz, mas é também verdade que O Jogo do Mundo é um bom compromisso para um título que não é fácil de traduzir em todas as suas tonalidades. De um modo literal, rayuela significa jogo da macaca, esse jogo no qual se atira um seixo e se salta ao pé coxinho. (...) a ideia e a imagem desse jogo estão ligadas a um aspecto que talvez seja o mais referido quando se fala deste livro: a sua forma.
No seu início, o leitor encontra uma tábua de orientação que sinaliza dois modos de ler este texto de Cortázar. Hoje, 45 anos depois, já é possível acrescentar que, para além das possibilidades indicadas pelo autor, têm sido sugeridas várias outras. Este é um livro que, em nenhum momento, minimiza o seu leitor, facilitando-lhe o que quer que seja. Este é um livro que convoca cada leitor para dentro de si, que o solta num labirinto sem lhe indicar a real saída, nem sequer se existe mesmo uma saída. O facto de não haver uma ordem única de leitura é um convite ao leitor intrépido para que arrisque a encontrar os seus próprios caminhos nesta obra. Assim como o terá de fazer neste jogo que, como indica o título português, é o mundo, é a vida. Isto porque é a própria vida que nos é apresentada de um lado e de outro. A vida, para a qual não existe qualquer tábua de orientação. Não creio que esteja a revelar demasiado se disser que é também assim que Horacio Oliveira, o protagonista, sente as imagens e as ideias que flutuam diante de si, consigo. O caos em luta permanente com a ordem: vitórias para ambos os lados.
(...)Como em todos os grandes livros, existe a procura do novo, mas aquilo que se alcança não é uma imagem da própria experimentação, aquilo que se alcança é o contemporâneo que, a avaliar pelos 45 anos de vida que já tem, continua e continuará sempre a ser contemporâneo. As meditações, as discussões filosóficas e literárias, frequentes nestas páginas, são de uma actualidade feroz. Além disso, este O Jogo do Mundo e, também, um livro de prazeres literários tradicionais, como sejam aqueles que advêm de uma caracterização muitíssimo rica das personagens e dos lugares, de uma linguagem variada e imaginativa, com excelentes diálogos e um domínio extraordinário do simbólico e do metafórico. Mas ninguém que conheça a excelência dos contos de Cortázar se poderá surpreender com a mestria que demonstra nesta longa múltipla unidade - se me é permitido o paradoxo. (...) 'o leitor prescindirá de ler o que se segue sem grandes remorsos'. Pela minha parte, a partir do lugar onde me encontro, nunca saberia como considerar dispensável a leitura dessas páginas. Já este prefácio nunca teve a intenção de não o ser. Quem não o tiver lido, seguirá sem remorsos grandes ou pequenos por tudo que aí vêm. (...) a esse potencial leitor indeciso este prefácio quer dizer: sim, deve ler este livro.
Mais nada. O indispensável começa depois desta última palavra."
José Luís Peixoto in Prefácio dispensável à primeira edição em Portugal de O Jogo do Mundo, tradução de Rayuela, de Julio Cortázar, publicada em 2008, pela Cavalo de Ferro Editores.
Extraído de www.cavalodeferro.com
Foneticamente, Rayuela é uma palavra que rola pelo interior da boca, como um doce que se desfaz, mas é também verdade que O Jogo do Mundo é um bom compromisso para um título que não é fácil de traduzir em todas as suas tonalidades. De um modo literal, rayuela
No seu início, o leitor encontra uma tábua de orientação
(...)Como em todos os grandes livros, existe a procura do novo, mas aquilo que se alcança não é uma imagem da própria experimentação, aquilo que se alcança é o contemporâneo que, a avaliar pelos 45 anos de vida que já tem, continua e continuará sempre a ser contemporâneo. As meditações, as discussões filosóficas e literárias, frequentes nestas páginas, são de uma actualidade feroz. Além disso, este O Jogo do Mundo e, também, um livro de prazeres literários tradicionais, como sejam aqueles que advêm de uma caracterização muitíssimo rica das personagens e dos lugares, de uma linguagem variada e imaginativa, com excelentes diálogos e um domínio extraordinário do simbólico e do metafórico. Mas ninguém que conheça a excelência dos contos de Cortázar se poderá surpreender com a mestria que demonstra nesta longa múltipla unidade - se me é permitido o paradoxo. (...) 'o leitor prescindirá de ler o que se segue sem grandes remorsos'
Mais nada. O indispensável começa depois desta última palavra."
José Luís Peixoto in Prefácio dispensável à primeira edição em Portugal de O Jogo do Mundo, tradução de Rayuela, de Julio Cortázar, publicada em 2008, pela Cavalo de Ferro Editores.
Extraído de www.cavalodeferro.com
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segunda-feira, 4 de maio de 2009
errando se vai longe, agora...
"Desde la infancia apenas se me cae algo al suelo tengo que levantarlo, sea lo que sea, porque si no lo hago va a ocurrir una desgracia, no a mí sino a alguien a quien amo y cuyo nombre empieza con la inicial del objeto caído. Lo peor es que nada puede contenerme cuando algo se me cae al suelo, ni tampoco vale que lo levante otro porque el maleficio obraría igual. He pasado muchas veces por loco a causa de esto y la verdad es que estoy loco cuando lo hago(...)" Rayuela, cap. 1, Julio Cortázar
Assisti, ontem, ao especial O infinito ao meu redor, de Marisa Monte, na TV. Acabo de escrever a passagem de Cortázar e me lembro do que ela diz, contando de uma estréia em São Paulo. Marisa anuncia que vai tocar um samba, pega do cavaquinho. Na platéia, compenetrada, está a autora do samba, Adriana Calcanhotto, entre miles espectadores.
Tudo escuro, Marisa larga os primeiros acordes. Silêncio no recinto. De repente, o rosto dela fica parado. Ela esquecera, por completo, nesses primeiros segundos, a letra da música. Para uma platéia lotada, e exigente, super exigente, como relata ela, durante o especial - a platéia paulista. Na narração, Marisa diz: "um show com erros é um show especial".
Em seguida, a cantora ri. Havia se lembrado! Começa a cantar.
Da platéia, Calcanhotto sorri. Todos aliviados.
É uma hora grave, esta. Humana. Enquanto vai contando da rotina nas tournês, com as imagens dos shows, Marisa fala que é isto, claramente: é um trabalho feito por seres humanos, todos querem que tudo saia perfeito, mas são humanos, provavel que errem.
Muito aplaudida, Marisa termina o samba. Todos - ela, os músicos que a acompanham, e os que a assistem - tornaram-se um pouquinho mais gente aí.
Assisti, ontem, ao especial O infinito ao meu redor, de Marisa Monte, na TV. Acabo de escrever a passagem de Cortázar e me lembro do que ela diz, contando de uma estréia em São Paulo. Marisa anuncia que vai tocar um samba, pega do cavaquinho. Na platéia, compenetrada, está a autora do samba, Adriana Calcanhotto, entre miles espectadores.
Tudo escuro, Marisa larga os primeiros acordes. Silêncio no recinto. De repente, o rosto dela fica parado. Ela esquecera, por completo, nesses primeiros segundos, a letra da música. Para uma platéia lotada, e exigente, super exigente, como relata ela, durante o especial - a platéia paulista. Na narração, Marisa diz: "um show com erros é um show especial".
Em seguida, a cantora ri. Havia se lembrado! Começa a cantar.
Da platéia, Calcanhotto sorri. Todos aliviados.
É uma hora grave, esta. Humana. Enquanto vai contando da rotina nas tournês, com as imagens dos shows, Marisa fala que é isto, claramente: é um trabalho feito por seres humanos, todos querem que tudo saia perfeito, mas são humanos, provavel que errem.
Muito aplaudida, Marisa termina o samba. Todos - ela, os músicos que a acompanham, e os que a assistem - tornaram-se um pouquinho mais gente aí.
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domingo, 3 de maio de 2009
A.Q.E.V.M.C.
Leio Rayuela de vez em sempre, desde 2007, quando fui para Buenos Aires. São meus amigos Horacio/Oliveira, La Maga, o bebê Rocamadour, as pontes de Paris, o circo, o porto, a inacreditável experiência de, entre uma janela de um apartamento e outro, armarem uma tábua para que a equilibrista (que morava em um dos apartamentos), por esta, alcançasse a Horácio (que morava no outro) erva para o mate, estando o casal circense e Horácio com "preguiça" de descerem as escadas para passarem, um, a erva para o amargo ao outro.
A frase "Antes que esta vida me cortázar" = A.Q.E.V.M.C. surgiu, assim, em uma das noites em que eu, deitada em minha cama do beliche no quarto vermelho, em Palermo, relia, ao sabor do jogo da amarelinha, as páginas da obra estupenda de Julio Cortázar.
A frase "Antes que esta vida me cortázar" = A.Q.E.V.M.C. surgiu, assim, em uma das noites em que eu, deitada em minha cama do beliche no quarto vermelho, em Palermo, relia, ao sabor do jogo da amarelinha, as páginas da obra estupenda de Julio Cortázar.
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