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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ficando

Fui ficando só. Uma pessoa dizia: você não pode se lembrar da morte de fulana, você era tão criança. Daí, pra mim, eu já estava fora daquela conversa. Não era aquilo. Era uma ferida grande e não tinha palavrea. Eu seguia, evitando aquela pessoa. Não que me conformasse, pelo contrário, eu desejava a morte da pessoa. Queria continuar, que é mudança, não tinha muito o que fazer naquela vida parada. Não nasci para fotografia. Para ser aquela que só é olhada, assistida, como se assiste televisão, uma propaganda.
A ânsia me arrastou, se eu conhecesse uma pessoa certa das coisas aquilo ia me sumindo, eu sumia pra poder estar com a pessoa. Depois, não aguentava. Quarenta anos parada no dilema, ou me julgando obrigada.
Me deu um nojo quando vi que a minha vida ia ficando por causa do que eu achava que as pessoas achavam de mim e que poderia desagradar. Comecei a andar, era o caminho triste, a ilha do medo, coisa e tal, mas antes eu tinha mais medo de nada. Ficar triste é uma moda de ficar bom pra si. Não ter a dívida, de ouro, que tanto maltrata no pensamento. Eu não conheço pessoa de bem que não seja um pouco estúpida, conheço mais gente de doideira que dá grandes feitos e depois esquece. Também não estou pra porrada - eu levo, aí eu vejo aquela porta aberta, e pode ser só uma frestinha, é por ali que eu vou. Isso se a coisa me dá nojo e dor no corpo. Hora em que não tenho mimos, não dou mimos, fecho e deu.
Tem de ser golpe fundo e pesado, mas às vezes, de gente pouco conhecida, pode ser uma sacadinha de nada. Fui ficando só. A gente aguenta de pé a solidão - esse caminho.
Toma de pé o vento, na cara, aí já não tem cabimento - por febre, por corno, por desdita, por qualquer amarelo que não for amarelo, uma pessoa segue pesando as suas medidas. Cada pessoa tem as suas medidas. De nada vale o metro do outro. Olho parado e besta não é.

Eu não sou velho, não.

E hoje subo "a subida mais escarpada, a mais à mercê dos ventos" (C. Lispector).
Em nós extremos, sorrio. Fui ao mercado para tomates. Faço sopa de tomates como ninguém. Gosto porque, lá em casa, o chão todo se desenha de peles de tomates que vou jogando. No mercado encontrei Graça, simpatia, queria ter os olhos dela no meu preparo da sopa. E ela me diz: bom dia, seu Leno. E eu: bom dia, moça Graça. Não sou velho, não. Mas penso que sou, no geral. Então Graça, que escolhia asas de frango, se mete nos meus tomates. Prefiro os graúdos mas ela pega os mais vermelhos de qualquer tamanho. Não vou discutir com Graça, eu, um velho que só come tomates. Carrego a cesta e vou para a balança. Não que eu quisesse convidar Graça, não que eu deseje convidar alguém para experimentar a minha sopa, disso estou farto, convites implicam, eu não tenho gosto por nada que implique. Mas volto pra casa alegre, abro a porta (alegre), pelo os tomates (alegre) e canto (se algum dia você vier me buscar, eu vou ai, ai, eu vou, eu sou marinheiro). Contratado para os meus afazeres, começo a morder os tomates crus, passo sem sopa. É amarga, mesmo.